quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Lembro como se fosse hoje: um cartazete no mural da faculdade anunciava o estágio em uma organização não-governamental. Para mim, que já andava metida em mil e um trabalhos voluntários, pareceu a chance de ser remunerada por tudo o que eu já amava fazer. Paraíso.

Isso foi há dez anos. Hoje, às vésperas dos 30, idade em que supostamente as coisas deveriam estar estabilizadas, resolvi mudar tudo. Trocar o terceiro setor pelo segundo, o sem fins lucrativos pelo lucro. Fazer o caminho inverso.

O marido e os amigos suportaram horas de falação - o que é mesmo que eu vou fazer da minha vida? Idéias não faltam, mas idéia não enche barriga. Horas de tortura mental, eu me perguntando por que diabos não segui o conselho de meu pai e fiz um concurso.

Até que o Grilo Falante que carrego comigo perguntou:

- Qual foi a última vez que a Vida te deixou na mão?

Tive que admitir: nunca. Sempre que larguei do trapézio, a Vida estava lá para me pegar em pleno ar. Por que seria diferente agora?
Estava deitada na rua, o meio fio era o travesseiro. A mulher estava nua da cintura para cima, a mão dentro da calça jeans aberta - protegia o sexo ou acariciou-se até adormecer?

Perto dela, uma kombi de um programa da prefeitura. Pessoas com cara de assistentes sociais pareciam aguardar algo - talvez, que ela acordasse, para conduzi-la a algum lugar.

A visão me chocou. Talvez tenha sido chocante mesmo, talvez eu tenha um olho de turista. Parei na padaria de sempre para tomar um suco e retomar o fôlego. Pela primeira vez, percebi um pequeno adorno em um gancho - alguém havia se dado o trabalho de pendurar aquele enfeite ali, para alegrar os nossos olhos.

Sim, ainda há doçura no mundo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Abre as asas sobre nós

Não vou citar nomes, mas não é segredo: detesto o marido de uma grande amiga. Deve ser a pessoa que mais detesto nessa vida. E, como depois do casamento, ela começou a se afastar de mim, fiquei com mágoa dela, também.

Daí que combinamos de nos encontrar para conversar a respeito.

Ela falou um monte de coisa, eu falei outro tanto. O resumo da ópera é que ela diz estar feliz. E eu fiquei todo o dia seguinte à nossa conversa sem saber o que fazer com isso. Claro, todo manual de catequese vai dizer que eu deveria estar feliz só em saber que a minha amiga está feliz, mas - que diabos! - eu não estava. Me sentia traída. Como ela pôde afastar-se de mim em nome de um pilantra daquele e ainda por cima permanecer feliz em uma relação tão limitante?

Insônia.

Mas hoje levantei da cama (não digo "acordei" porque sequer dormi) sem saber que bicho me mordeu. Só lembrei de um sem-número de outras situações em que eu me senti exatamente assim: traída pelas pessoas que eu achava que deveriam estar mais próximas de mim. Não saberei colocar em palavras o que estou sentindo e acho que vai soar muito amargo (quando o que estou sentindo é pura liberdade), mas é o seguinte: dei-me conta de que o problema é meu. Porque ninguém tem obrigação nenhuma comigo.

Mãe, pai, marido, amigos: ninguém me deve nada. E - glória suprema! - muito menos eu a ninguém.

domingo, 4 de outubro de 2009

De uma nota só

Foi em um papo com uma amiga que entende das coisas. Ela disse: que todos nós temos um tema. E eu pensei: como um refrão de música. Que se repete de tempos em tempos e tantas vezes que, quando nos damos conta, estamos cantarolando por aí.

E a amiga continuou: que o tema é tão forte que a própria pessoa faz tudo para provar para si mesma e para todos ao redor dela que ela está com a razão.

O tema é "vivo sozinha"?
O tema é "sou doente"?
O tema é "não tenho dinheiro"?

Ok, baby, então você fará de tudo para provar que tem razão. Vai consumir por impulso, vai detonar a própria saúde, vai afastar as pessoas. Tudo ali naquela base do inconsciete, é claro.

Putz, minha cabeça deu uma iluminada. Foi como um relâmpago, só que sem a escuridão de depois. Meus temas, claro: a enxaqueca. O mestrado que parece sem fim. A falta de dinheiro crônica. A amiga com quem briguei. O trabalho que já faço há dez anos e não sei como mudar. E outros, e tantos.

Por que a gente não consegue pegar um problema à unha e resolver até o fim?

"A vida é luta e desespero", disse a minha amiga. Na hora eu concordei, agora eu tenho dúvidas. Ah, mas que há os temas, há.

domingo, 27 de setembro de 2009

Com crise se cresce, diz o dito popular. E não é que é verdade? Pelo menos pra mim. Com crise eu cresci.

O primeiro sangramento veio acompanhado da primeira enxaqueca. Dor absurda, vômito, um pesadelo. O alívio só veio com o analgésico e, quase vinte anos de abuso de analgésicos depois, eu tinha o que os médicos chamam de cefaléia diária crônica. Em linguagem dos mortais: dor todo santo dia.

O auge da crise foi a hospitalização. Louca de dor, acabei indo parar em uma emergência médica. A bomba analgésica não foi suficiente: horas depois de voltar pra casa, a dor retornou tão forte quanto antes.

E foi naquele momento, na horinha mesma em que a dor voltou, que a crise deu seu fruto. Não me perguntem o que aconteceu. Só sei que hoje fazem doze dias e, de lá pra cá, eu tenho feito coisas que nunca tinha feito antes, embora sempre tenha sentido vontade.

Estou aqui, me expondo neste blog, que estava desatualizado há meses. Comecei a me exercitar na academia. Comprei um sapato com um salto enorme. Fui à igreja. Comecei a investir tempo em um projeto pessoal antigo, aquele que sempre quis fazer mas nunca encontrava tempo.

São coisas simples. Chega a ser simplório. Mas são coisas que eu tinha vontade. São as minhas vontades. Então, sou eu.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Homem com a Flor na Boca estréia neste sábado no SESI Rio Vermelho

(Frank, em foto tirada por mim)

O valor da vida e os caprichos da morte são temas que ganham vida em “O Homem com a Flor na Boca”, texto do italiano Luigi Pirandello adaptado, dirigido e encenado por Frank Magalhães (“A farsa da Boa Preguiça”, de Harildo Déda). A estréia acontece neste dia 09 (sábado), às 21h, no Teatro Sesi Rio Vermelho.  A temporada acontece durante todo o mês de maio, sempre aos sábados (às 21h) e domingos (às 20h). Os ingressos custam R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia) e, durante esta temporada, metade da bilheteria da montagem será revertida para o Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC).

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(Para Yoshi Aguiar, Finos Trapos e todos os atores e atrizes com quem convivo todos os dias)

Funciona assim: a peça de teatro é linda. Mas, mais linda ainda é a coxia: atores e atrizes entrando e saindo no corredor mal-iluminado, trocando de roupa e de alma.

Funciona assim: a coxia é linda. Mas mais linda ainda é a técnica. Aquela cabine que ninguém vê, de onde daem as luzes e o som. Na cabine invisível, um trabalho invisível quando bem executado.

A peça é linda, mas mais lindo ainda é o depois da peça. Pelas portas dos fundos, saem os operários do sonho. Vão tomar uma cerveja para celebrar a noite, ou estão brigados e querem distância, depois de tantas horas de convivência obrigatória. Saem ruidosos, saem em silêncio, saem sem dar autógrafos, os operários dos sonhos.

Gente, me segue aí, vai!