segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A ocupação que foi twittada

Assim como tantos brasileiros, também fui acordada na manhã deste domingo com notícias da retomada do Complexo do Alemão. Diferente do que aconteceria há pouco menos de dez anos, porém, não foi pelo Plantão do Jornal Nacional que tomei conhecimento dos fatos. Foi ao me conectar ao Twitter, ritual que cumpro todas as manhãs, que soube do que estava acontecendo, por meio do perfil identificado como @vozdacomunidade.

A Voz da Comunidade é o nome de um jornal produzido por crianças e adolescentes com idades entre 10 e 17 anos. As operações de domingo no Complexo do Alemão foram acompanhadas, desde o início, por estes jovens aprendizes de repórteres, que tuitaram o que estava acontecendo do olho do furacão.

(O Twitter é, na linguagem da Internet, uma rede social - serviço que agrega internautas que "seguem-se" uns aos outros, de acordo com seus interesses. Cada texto publicado no Twitter deve  ter, no máximo, 140 caracteres: espaço pra lá de enxuto, muito bem utilizado pelos adolescentes da @vozdacomunidade.)

Às 7h58 (horário de Brasília), eles anunciaram: "O helicóptero acabou de chegar neste momento!!!". As postagens seguintes não deixaram margem para dúvidas: "há muitos tiros neste momento", "tiroteio intenso", "acabou de chegar mais um blindado" e um com uma ênfase que não deixa dúvidas: "É GUERRA mesmo! Muitos tiros!".

Por volta das 8h, quando a Globo News anunciava a tomada do Morro, A Voz da Comunidade respondia aos internautas: "Se ainda conseguimos ouvir disparos, é porque não dominaram toda a comunidade". À noite, quando a reportagem do Fantástico se gabava de ter tido a primeira repórter a transmitir ao vivo do alto do Complexo, os jovens de @vozdacomunidade brincavam com o público - "pensei que tinha sido eu".

Taí a revolução das mídias que nos prometeram: os benefícios da democratização dos meios de comunicação pela qual tantos militantes (eu incluída) brigaram (e que foi conquistada - pasme - via mercado. Mas isso é outra história). Hoje, a classe C tem o mesmo percentual de acesso à Internet do que a classe AB e a maioria dos internautas - 70% - acessa a rede de sua própria casa (Pesquisa IBOPE Nielsen).

Tão habituados que estão às tecnologias, nem mesmo o idioma parece ser barreira para esta geração de nativos digitais. Ainda sem interface em português, o Twitter conta com uma proporção esmagadora de brasileiros entre seus usuários: somos o segundo país com mais usuários na Rede, segundo pesquisa da Sysomos (dez/2009). No dia da ocupação do Complexo do Alemão, o perfil @vozdacomunidade ganhou cerca de 20 mil novos seguidores.

A vontade de se manter bem informado é um dos motivos por trás do crescimento exponencial do Twitter. Mas, ao que tudo indica, o fenômeno das redes sociais se sustenta mesmo nas necessidades humanas de interagir e fazer sentido. Esses meninos que, enquanto se protegiam dos tiroteios, nos informavam e interagiam conosco, tocaram em um ponto sensível da minha emoção: a certeza absoluta de que emitir o seu ponto de vista é um direito a ser exercido, qualquer que seja a situação.

Para acompanhar A Voz da Comunidade: www.twitter.com/vozdacomunidade

2 comentários:

Cami Fiamoncini disse...

Olá! Cheguei aqui por acaso mas aprecio ler o português correto e beeeem escrito. Parabéns!
Quero aproveitar pra te convidar pra conhecer - e seguir - o meu blog:
www.abcdecami.blogspot.com

Maria Muadiê disse...

"a certeza absoluta de que emitir o seu ponto de vista é um direito a ser exercido, qualquer que seja a situação."

assino embaixo.
beijo